Por Julia Monteiro Nalles

Em 1969, ocorreu o episódio que ficou conhecido como Revolta de Stonewall, um marco na luta LGBT+ por direitos, sendo este, possivelmente, até hoje, um dos maiores exemplos de resistência contra a homofobia. Desde então, a data da Revolta (28/06) ficou marcada como o Dia do Orgulho Gay. Entretanto, tal acontecimento pareceu não dar luz a todas as letras presentes na sigla LGBT, de modo que 30 anos mais tarde, em 1999, viu-se a necessidade de ser criada uma data exclusiva para os bissexuais.

Nesse contexto, os ativistas estadunidenses Wendy Curry, Michael Page e Gigi Raven Wilbur fizeram do dia 23 de setembro uma data na qual a atenção devesse ser destinada àqueles que se identificam como a letra B de LGBT, letra essa que não era nem sequer presente na sigla anterior: GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes).

Mas, se já existe um dia do orgulho muito comemorado pelos LGBT+ no geral, por que seria necessária uma data específica para a comunidade bissexual? A resposta para essa pergunta pode ser resumida em: bifobia é diferente de homofobia. Isso não quer dizer que um preconceito é mais sério do que outro, mas simplesmente que os dois, apesar de possuírem pontos em comum, têm nuances consideravelmente distintas. Enquanto a homofobia pode ser definida como uma forma de opressão àqueles que desviam de uma norma imposta socialmente, sendo esta a heteronormatividade, a bifobia consiste na resposta violenta ao desvio de duas normas, uma vez que não só se rompe com a heteronormatividade, mas também com a monossexualidade.

Sobre isso, o rompimento com a chamada monossexualidade, isto é, o fato de ser atraído por apenas um gênero, gerou por muito tempo – para não dizer que ainda gera – a ideia de que bissexualidade seria nada mais do que uma perversão sexual, de forma que seja ligada ao grupo a característica de promiscuidade.

Ademais, o fato de a monossexualidade ser algo comum entre homossexuais e heterossexuais faz com que a repressão à comunidade bi ocorra inclusive dentro do próprio grupo LGBT+. Tal fenômeno já foi mencionado por uma das principais ativistas do coletivo brasileiro Bi-sides, que, em uma reportagem feita pelo G1 em 2018, falou sobre o quão necessário era a existência de um espaço no qual bissexuais se sentissem bem vindos por inteiro, o que não costuma ocorrer em outros ambientes de conversa LGBT+.

Em termos práticos, pesquisas recentes demonstram o impactante reflexo da bifobia em assuntos como saúde mental. É sabido que jovens LGBT+ sofrem, proporcionalmente, mais com problemas psicológicos do que jovens hétero, de forma que a Universidade de Columbia, por meio de um estudo realizado em 2012, concluiu que jovens gays são 5x mais propensos a tentar suicídio. Porém, além disso, tem se observado que esse tipo de questão é ainda mais presente entre os bissexuais do que entre os homossexuais. Um estudo feito pela revista Journal Of Public Health, em 2015, indicou que mulheres bissexuais, em relação a mulheres lésbicas, são 64% mais propensas a lidarem com distúrbios alimentares, tem 37% mais chance de praticar automutilação e 26% mais prováveis de sofrerem depressão.

Apesar de esses dados serem tão alarmantes e de o dia da visibilidade bissexual ocorrer justamente no mês de setembro, quando há um incentivo para que se coloquem em pauta questões relacionadas à saúde mental (movimento Setembro Amarelo), tais informações não costumam ser muito divulgadas e não parecem chegar ao conhecimento daqueles que não procuram encontrá-las. Isso é, evidentemente, mais um exemplo do quão invisibilizada é a comunidade bissexual e do quanto a data destinada ao grupo não só ainda se faz necessária, como também parece estar longe de ser o suficiente.

Fontes

Saiba mais sobre o 23 de setembro, Dia da Visibilidade Bissexual

Bissexuais relatam preconceito dentro do meio LGBT: ‘Somos invisíveis’

Bem Estar – Saúde mental de mulheres bissexuais é pior que a de lésbicas, diz estudo

Jovens LGBTs estão 5x mais propensos a cometer suicídio

Publicado por Julia Monteiro Nalles

Coletivo LGBT+ da Faculdade de Direito Mackenzie

Instagram: @coletivocassandrarios

Facebook: fb.com/coletivocassandrarios


Siga o JP3!

Instagram : @jornalpredio3

Facebook: fb.com/jornalpredio3


Mais notícias e informações:


Jornal Prédio 3 – JP3 é o periódico on-line dos alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe!