Ana Yassuda, membro da ALEMack

Florentina Esteves nasceu em Rio Branco (AC), na casa que hoje seria o segundo edifício mais antigo da cidade se não tivesse sido destruída por um incêndio em 2013. Até os dez anos de idade, foi testemunha da efervescência da época na região, ao ver o entrar e sair dos hóspedes no hotel de seus pais, o antigo Madrid. Assim, viu de perto parte da formação do Acre, com a convivência dos migrantes sírios e libaneses.

Antes dos vinte anos, desfez um noivado quase à beira do altar e foi para o Rio de Janeiro, onde se dedicou aos estudos, formando-se em Filosofia e Letras Neolatinas pela UFRJ (1953). Anos depois, retornou ao Estado do Acre e se tornou a primeira professora graduada a atuar na Educação do estado. Foi Secretária da Educação na década de 1960, e começou a se dedicar à escrita a partir de 1981.

E a relevância da história de Florentina Esteves se deve justamente ao seu pioneirismo como mulher e como escritora no cenário acreano. Deslocada do eixo literário Rio-São Paulo e inserida em um contexto machista e predominantemente masculino, o primeiro livro da autora foi também a primeira obra literária publicada no estado do Acre a ser produzida por uma mulher. “Enredos da Memória” chegou às prateleiras apenas em 1990, sessenta longos anos após “O Quinze”, romance de estréia da carreira de Rachel de Queiroz, e reúne trinta e dois contos que retratam muitos episódios do passado acreano. Os relatos são tão vívidos que o leitor pensa estar vivendo cada página lida, ressalta a Profª. Dra. Margarete Edul Prado de Souza Lopes em sua pesquisa de doutorado, publicada como o livro “Motivos de Mulher na Amazônia: Produção de escritoras acreanas no século XX” (EDUFAC, 2006).

Florentina Esteves também lançou “O Empate” em 1993, seu primeiro romance e também o primeiro romance a ser publicado no Acre por uma mulher. A narrativa gira em torno da personagem Severino Sobral, casado com a índia Mani, e de um de seus filhos, Firmino. Este integra o sindicato dos seringueiros, que sob a liderança de Chico Mendes começa a fazer empates, atos pelos quais um grupo de pessoas se reúne para impedir a derrubada da floresta. Os empates constituíram uma verdadeira forma de resistência e combate do seringueiro acreano para conter a devastação da floresta, que cedia lugar às pastagens, e Florentina Esteves insere na ficção um contexto histórico relevantíssimo e pouco pontuado nos nossos livros de história. 

Em 1998 lançou o seu segundo livro de contos, “Direito & Avesso”. Os três livros, primeiramente, foram publicados pela Oficina do Livro, no Rio de Janeiro, devido à falta de recursos editoriais na cidade natal da escritora.

Isso posto, é fato incontestável a relevância da obra desta escritora pouco estudada e conhecida. Suas obras, infelizmente, são pouco acessíveis ao público — com poucas edições e exemplares, só é possível adquiri-las em websites de sebos — e sua existência está embotada pelo tempo, talvez sem nunca ter adquirido relevância no eixo literário Rio-São Paulo, sempre supervalorizado.  Entretanto, a escrita regional de Florentina Esteves é uma das poucas peças femininas da literatura acreana, de enorme valor histórico. E, ao mesmo tempo, supera o regionalismo ao tratar de coisas comuns a todos os lugares e gentes: sentimentos, solidão, injustiças, luta pela terra, pela vida.

Publicado por Rafael Almeida


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