Gabriel Moraes Figueiredo, membro da ALEMack

Medo. Tenso, pulo o muro donde tudo é farto. Olho pra trás e vejo o meu humano-pai, que acabou de me doer, observando. Viro e fujo, de uma vez por todas. Os cães vizinhos latem para mim. Já passeei muitas vezes por esses arredores, ruas, becos, praças; agora, são minha casa. Humano-estranho me olha com medo, me esconde de humano-filhote; como se fosse eu o predador e eles a presa. Me sinto poderoso como o humano que me alimentava, causo medo. Parece que todos humanos-estranhos tem medo de mim, tornam as caras para não me olhar, perto de mim suas vidas estão em perigo.

Vou pra praça. Tem muitos humanos-estranhos e cães, parece que os cães prendem os humanos-estranhos e os carregam por onde querem passear com as cabeças. São realmente muito fracos esses tipos de humanos. Continuam a me ignorar, me esconder do olhar. Já os cães não parecem ter o mínimo de medo de mim, são agressivos, latem. Tenho medo deles me doerem, é como se tivessem um ódio natural por mim. Desde que era gato-filhote, quando passeava pelas ruas perto de portões com cachorro, atacavam os portões, latiam, desejavam minha dor. Nunca passaram de ameaças, nunca se abriam os portões. Mas raramente saem de casa, não são livres como eu; não conhecem o mundo como eu. Seus mundo são suas casas, enquanto o meu é toda cidade. Eles nunca poderiam fugir como fiz, nunca desafiariam seus donos, são fiéis até quando o dono os faz doer. Sinto pena deles. Correm de um lado para o outro, com muitas certezas; mas não há certezas nesse mundo. Nunca conhecerão a liberdade.

alemack

Estou cansado. Deito num canto da praça. Com latidos acordo. O peito bumba, me deixa surdo. Um dos cães na praça olha para mim com fúria. Quer minha dor. Larga seu humano-estranho no chão e vem correndo em minha direção. Fujo. Em cima da árvore estou seguro. O cão ainda late e pula. Por que me odeiam tanto? Seria por eu não ter mais um humano, como ele tem? Ou por eu ser gato e não cachorro? Por que quer minha dor, igual ao humano-pai? O humano vai agradá-lo, acalmá-lo. Cão desiste de mim, recebe carinho e biscoito. Eu quero carinho e biscoito. O cachorro volta a passear na praça. Eles podem ficar na praça, eu não…

Ando pelas ruas. Sigo os ventos. Me contam os segredos da solidão, doloridos e viciantes. Corro, pela luz, livre, como os cães nunca serão; o asfalto e o céu vermelho, traçam meu caminho. Tenho fome. Meus pulos não são tão altos. Minha corpo fica seco. Tenho sede, de água, de calor. Meu humano me daria água e comida. Devo voltar para ele, depois de me doer, leal como um cão abobado?

Na virada, na calçada, um humano-filhote me abraça. Sinto calor. Me esquenta. Me tira dos ventos frios da solidão. Faz carinho no pescoço. Parece que esse humano-filhote não tem medo de mim, não torna a cara ou me ignora, muito menos me ataca; me esquenta como muito tempo atrás fazia meu humano-pai. Hoje não tenho mais humano. O humano-filhote me dá comida-estranha. Prazer. Dou-lhe calor de volta. Encontrei um novo humano, enfim. Não sou mais apenas um ser só, tenho companhia, calor. Um irmão de vida. Meu humano-filhote mia com seu comedouro dos barulhos mais diversos. Olha para trás. Vejo vir um humano-grande, parece ser o humano-pai do humano-filhote. Vai me amar também? Me agarra e arremessa no asfalto. Dor. Sai vermelho de mim. Meu pelo se suja de vermelho e dor. O humano-grande segura o humano-filhote e o distancia de mim, como se fosse eu o perigo. Faz barulhos com a cara, agressivo. Cospe em mim e me chuta para longe. Sente nojo de mim. Fujo para a distância, vejo o humano-filhote triste. Sua cara também é suja de dor. O humano-filhote parecia tão livre e decidido, até chegar seu humano-pai. Talvez os humanos-filhotes, quando crescem, criam medo de nós, se estragam.

Perambulo pelas ruas no escuro da noite. Ainda sinto fome e sede. Vejo uma gata em cima do muro. Sinto cheiro de vontade. A gata olha para mim por um tempo, se vira e começa a andar. Vou atrás. Estou fraco mas não deixo de segui-la. Ela para num beco e olha pra mim. Amamos. No fim do coito, me abandona, foge pela escuridão, no fluxo dos ventos. Ela toma um caminho diferente, mas ambos, no fim, estamos na solidão e seus ares frios. Queria comigo levar alguém, um irmão, um humano, uma gata, pelo caminho da solidão; mas assim ele não seria tão só. Queria me esquentar sem precisar de raios de verão, talvez isso seja muito a pedir da escuridão.

Me deparo na rua que já foi minha casa. Reconheço o latido dos cães presos. Querem meu vermelho. Conseguem senti-lo seco nos meus pelos. Devo eu voltar? Terá sempre comida para mim, talvez apanhar não seja tão ruim se estarei vivo. Talvez a dor seja parte do calor. Me aproximo da casa, subo no muro num pulo fraco. As pernas fraquejam. Agora tem um cão dormindo na minha casa. No lugar que era meu. Meu humano-pai me trocou. Sinto peso no meu peito.

Desço para entrar em minha casa. A janela que costumo entrar está cerrada. Dou voltas na casa. Piso em uma bolinha colorida que faz barulho agudo. O cão acorda. Late e corre para mim. Vejo as luzes de minha casa ligarem. Subo em uma pequena árvore. Estou protegido. O cão pula e baba. O bumbo me deixa surdo. Sou a presa. Vejo meu humano-pai vindo e, desatento, caio no chão. O cão faminto, meu predador, se aproxima de mim para comer minha pele seca sem dó. Posso até me machucar, mas sei que meu humano-pai vai me salvar. Corro. Desvio do cão e vou na direção do meu humano-pai. O predador me segue com ainda mais fome. Bufa no meu cangote. Calafrios. O meu humano pai entra em casa e fecha a porta em minha cara. O cão me alcança com uma mordida sedenta. Dor. Vermelho como o céu. Minhas patas não mexem. Impotência. Vejo meu humano-pai assistir minha dor pela janela, posso ver seus dentes.

Publicado por Rafael Almeida


Siga o JP3!

Instagram: @jornalpredio3

Facebook: fb.com/jornalpredio3

Mais notícias e informações:  

Jornal Prédio 3 – JP3, é o periódico on-line dos alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe e escreva!