“Democracia” e os movimentos universitários 

Por Renan Andrade Rodrigues 

 

Sabemos que com o tempo e o uso, todas as palavras se degradam, como por exemplo: democracia. Outrora uma palavra capaz de inspirar tantos valores, hoje passou por todas as abjeções. Os regimes mais canalhas nascem e prosperam em nome da “democracia”. E atualmente, dentro das universidades, nada mais novo, nada mais inédito do que a massa jovem e “democrática”, em que todos se espelham e gloriam, esperando que – como futuro da geração – será aquela famigerada legião responsável por grandes feitos em tempos modernos. Serão os jovens “democráticos”, os futuros juristas, intelectuais, artistas, etc. que irão apossar-se em uma conquista vitoriosa de todos os cargos, como “representantes” do povo, quase que por unanimidade. Quase.  

Quando falamos em democracia falamos também das multidões polvorosas. Do grupo barulhento de pessoas que pretendem ganhar não só no voto, mas também no grito. Aliás, ganhar no grito é fundamental, pois faz parte da encenação política e da psicologia das massas. Afugentar e assustar o inimigo através do grito, do coro, é uma artimanha antiga. Primeiro porque deixa o grupo rival furioso, e só isso já nos demonstra a eficácia das multidões em uníssono, em uma só causa, em um só espírito, bradando contra a multidão adversária, mostrando seu próprio vigor em uma mentalidade única e exclusivamente coletivista.  

Segundo porque desestabiliza emocionalmente os demais. Quando todos ao redor percebem quem está entoando os virtuosos “gritos de guerra”, aí vê-se a força sonora do mais ruidoso. Ora, a fórmula certa para a criação de uma militância-política juvenil é esta: mostrar para todos os outros a nobreza de seu ideal e convertê-los, isto é, aglutiná-los num mesmo sentimento jovem. E veja que o jovem é idealista, gosta de adotar um compromisso, uma causa, um sentido para a vida que ele mesmo despreza. O apreço pela opinião dos coletivos e o sentimento de pertencimento ao “bando” é um objetivo incessante na vida universitária. Quando veres um grupo de jovens, quer seja fumando ou bebendo, ou a realizar qualquer outro desperdício de vida, saiba então que alguma coisa em comum há entre eles.  

  

Mas as multidões me trazem também uma espécie de repulsa. E uma multidão de jovens mais ainda, pois esta sempre vai estar nos lugares mais perceptíveis, ocupando espaço. Ocupando poder, como a política atual nos mostra. A estratégia é clara e objetiva: preencher através de uma lenta e silenciosa façanha a tomada de todos e quaisquer meios de comunicação e de destaque; em suma, ter nas palmas das mãos cada mísero pedaço de autoridade, galgando as posições mais altas a fim de conduzir os demais. Aparelhar de modo sistemático e coordenado o conjunto de instituições acadêmicas, impedindo a resistência do outro lado. Suprimir violentamente qualquer um que levante um dedo contra a liderança jovem e “democrática”. Digo democrática para não dizer outra coisa pior, bem pior.  

Agora, perceba o leitor que sempre tem um guia da trupe juvenil, um líder, ou ainda uma espécie de guru espiritual para comandar as massas jovens, que estão lá para o aclamá-lo, bajulá-lo, numa idolatria quase que religiosa, como se vissem nele uma espécie de “messias” ou qualquer outra coisa parecida. A multidão defende com unhas e dentes o líder que venera. Prontamente me recordo do Óbvio Ululante, obra na qual Nelson Rodrigues já nos alertava: “Sempre digo que a multidão é inumana porque não tem cara.” E essa falta de cara – e de caráter, pois obviamente não se pode esperar caráter de uma multidão febril – me deixa enojado. Ainda mais por fazer parte de uma classe tão mesquinha, tão miserável e tão doente que é essa classe jovem.  

 Mas nos voltemos para as palavras do dramaturgo. Nelson Rodrigues expunha também o culto ao jovem, a obsessão quase que insana pela juventude.   

“Diz-se “jovem”, e eis o que acontece: — instala-se no Brasil um “jovem” que está acima do bem e do mal, ser terrível, absurdo. É irreal, mas não importa: — temos que acreditar no monstro. […] Pergunto: — quem é o verdadeiro autor do “poder jovem?”. Será o próprio jovem? Eu não teria nada a objetar se o próprio jovem apanhasse no chão, a mãos ambas, o Poder. Mas aqui começa o divertidíssimo equívoco: — o autor ou autores do “poder jovem” são os velhos, os mais velhos. O jovem propriamente não moveu uma palha para tornar-se poderoso. Foram os pais, as tias e, numa palavra, a família; foram os professores, os sociólogos, os sacerdotes, os jornalistas, os políticos. De repente, os velhos resolveram conferir ao jovem, e de graça, méritos e potencialidades jamais suspeitadas.”  

 

Fato é que toda essa multidão universitária reclama por poder, cada vez mais e mais. Ao criar uma juventude narcisista, mimada e desordeira, criamos também juntamente com ela uma histeria coletiva, um mundo perturbado por pessoas insatisfeitas com o que já possuem. E nessa cruzada pela “democracia” a todo e qualquer custo, nivela-se por baixo a originalidade, a individualidade de cada um. A prostituição da personalidade, elemento estruturador dos processos de massificação política, que nada mais é senão a negação do próprio “eu”, da sua própria autonomia em detrimento do núcleo universitário, acaba que solapando e reduzindo a nada grandes mentes que poderiam um dia contrapor o imaginário virulento que é essa juventude fétida. Sob o pretexto e a promessa “democrática” de um dia partilhar o poder com aqueles que os elegeram, os líderes jovens vão enganando cada vez mais os pobres ludibriados a defenderem as pautas que eles mesmos propõem, criando assim um mecanismo perfeito para se perpetuarem nas posições que já ocupam. Seria esse o verdadeiro sentido e compromisso que a democracia deveria tomar?   

 

Em um desses debates universitários da área do Direito, onde as chapas concorrentes pleiteiam o cargo ao Centro Acadêmico (entidade estudantil que de pouco ou nada serve senão a propagar a cartilha partidária esquerdista, dentre palestras, eventos com candidatos políticos, etc.), houve um jovem, cujo nome sequer merece ser aqui citado, que disse abertamente à plateia que ele mesmo e sua turma não acreditavam que as escolhas democráticas fossem sempre as escolhas mais certas. Ao ser questionado sobre o uso de pesquisas para a análise de representação política e de como o Centro Acadêmico deveria ou não se posicionar, grosso modo, ele respondeu que: “Nós não achamos que abrir espaço para enquetes possam ser o melhor caminho para o Centro Acadêmico, porque a opinião da maioria nem sempre é a opinião mais certa, ou a opinião da verdadeira democracia”.  

Ele basicamente quis dizer que a decisão da maior parte dos estudantes nem sempre é a escolha mais precisa, quer seja moral ou juridicamente, isto é, as opiniões das massas populares (muitas vezes carentes de instrução e conhecimento, ou no linguajar que Sócrates preferiria, sem sabedoria) podem muito bem conduzir o voto para uma má escolha. E o candidato em questão seguiu com suas exemplificações, alegando que demorou anos para que o povo aceitasse e reconhecesse não só o casamento tradicional monogâmico, mas também outros tipos de “arranjos” e “configurações” familiares, e que somente hoje podemos falar em “novos tipos de categorias familiares” que antes eram inconcebíveis. E ainda mais, podemos supor, por exemplo, que o povo escolheria (por uma ampla maioria) a pena de morte, ainda que esta seja moral ou juridicamente “errada”. Ou seja, através dos exemplos ele pretendeu fundamentar a afirmação de que – realmente – nem sempre o princípio “a maioria está sempre certa e suas escolhas são as melhores” é verdadeira e genuína, visto que a maioria pode fazer péssimas escolhas. Pior do que isso, na maior parte das vezes as escolhas da maioria são imorais, além de juridicamente equivocadas e balizadas pelo senso comum.  

  

Além desse fator, o grupo jovem e universitário não acreditava na capacidade das enquetes para discussões de representatividade política como um mecanismo democrático, argumentando que a partir do momento em que se elege uma chapa, ela deve seguir rigorosamente sua carta-programa a fim de representar os universitários, ou ao que parece, representar somente aqueles que os elegeram. Os debatedores defendiam que assim que a maioria escolhesse o grupo candidato a ocupar o poder (e isso se chama democracia), deve-se aceitar que as pessoas eleitas tomem todas e quaisquer decisões em prol de todos os estudantes.  

 

Mas eu não condeno o grupo universitário e os seus representantes debatedores. De fato, o futuro jurista em questão nunca esteve tão sóbrio, e posso dizer, com todas as letras, que concordo totalmente! Todos nós sabemos que a democracia ateniense julgou e condenou o pai da filosofia, Sócrates, em um dos processos mais injustos que podemos ver na história da humanidade, perdendo somente para aquele em que o Salvador, Jesus Cristo, entregou-se a si mesmo por amor daqueles que o rejeitaram. Todos nós sabemos, sem dúvida alguma, que a democracia é, por diversas vezes, abalada por aqueles que agem de má fé, tendo interesses e motivações que no fundo geram a parcialidade, a irregularidade e a injustiça, levando os demais a agirem através de um sentimentalismo populista e torpe, inflamando e instigando as massas num movimento irresponsável e inconsequente, fruto da geração atual.  

 

Seguindo a sugestão reflexiva do debatedor da chapa “preocupada com a pluralidade de visões dos diversos tipos de estudantes”, por que não se pensar profundamente sobre os verdadeiros benefícios – ou não – da democracia dentro do ambiente universitário e para além dele? Como aponta o pensador Hans-Hermann Hoppe, escritor da obra “Democracia, o Deus que falhou”, ele nos mostra que: “[…] deve-se, em primeiro lugar, ressaltar que é difícil encontrar muitos defensores da democracia na história da teoria política. Quase todos os grandes pensadores nutriam desprezo pela democracia. Até mesmo os Pais Fundadores dos Estados Unidos – um país que, hoje em dia, é considerado o perfeito modelo da democracia – opunham-se rigorosamente a ela. Sem uma única exceção, eles pensavam que a democracia nada mais era do que o governo do populacho, da gentalha, da multidão (mob-rule). Eles se consideravam membros de uma “aristocracia natural”; e, ao invés da democracia, eles defendiam a adoção de uma república aristocrática. Além disso, até mesmo entre os poucos defensores teóricos da democracia – como Rousseau, por exemplo –, é praticamente impossível encontrar qualquer pessoa que defenda a democracia para agrupamentos humanos que não sejam comunidades extremamente pequenas (aldeias ou cidades)”.  

 

Em uma última análise, Hoppe afirma que: “[…] os amoralistas habituais que são os mais talentosos em reunir maiorias de uma multitude de demandas populares moralmente desinibidas e mutuamente incompatíveis enfim, os eficientes demagogos – tendem a obter o ingresso no governo e a subir ao topo da hierarquia governamental. […] A massa das pessoas, como reconheceram La Boétie e Mises, sempre e em todo lugar consiste de “brutos”, “estúpidos” e “tolos”, facilmente iludidos e afundados em habitual submissão. Assim, nos dias de hoje, doutrinada desde a mais tenra infância com a propaganda governamental em escolas públicas e em instituições educacionais por legiões de intelectuais certificados pelo governo, a maioria das pessoas, sem pensar, insensatamente aceita e repete disparates, absurdos e bobagens tais como “a democracia significa o autogoverno” e “o governo é do povo, para o povo e pelo povo”. Mesmo que possa enxergar através desse artifício, a maioria ainda aceita, sem espírito crítico e sem questionamento, o governo democrático em decorrência do fato de que ele lhes fornece uma variedade de bens e de benefícios. Esses “loucos”, observa La Boétie, não percebem que estão “meramente recuperando uma parte dos seus próprios bens e que o seu governante não poderia ter lhes dado o que eles estavam recebendo sem ter antes lhes tomado à força esses bens”.   

  

Nesse interim, o ponto importante a ser captado é de que a demagogia, tendência natural dos modelos democráticos, é uma consequência proeminente sob a égide da legitimidade de que “compete sempre aos eleitos pela maioria, definir o que pode e o que não pode, o que deve-se e o que não se deve, o que é e o que não é, o que é verdadeiro e o que não é verdadeiro”. Para os movimentos universitários são os “iluminados”, os “escolhidos”, os “eleitos” que devem tomar as rédeas do curso das vidas de todos os demais universitários. Aqueles que melhor persuadiram seus eleitores a votarem na chapa e a seguirem o modelo do grupo, são aqueles que podem – e com certeza vão – decidir por todos os outros, e muitas das vezes sem escolha dos estudantes decidirem futuramente, através de outra votação, como e por qual razão a gestão universitária deveria agir desta ou daquela forma.  

  

Não, oh céus! Não. Talvez os estudantes do Direito não queiram de fato uma democracia. O que a corja universitária almeja é uma idiocracia, aquela onde os mais idiotas elegem os menos idiotas, porém mais articulados que os primeiros. A verdade é que a chapa anti-democrática venceu, e veja só que ironia: foi a maioria quem a elegeu. E por uma diferença grande comparada à chapa perdedora! Quem sabe o debatedor não tinha razão? Verdadeiramente, nem sempre a opinião da maioria é a opinião mais correta.   

  

Com toda essa empreitada acadêmica, volto minha atenção não para esses nossos tempos, controlados hegemonicamente pela mentalidade juvenil, mas sim para o passado, que talvez nos permite tirar lições de vida muito melhores sobre como devemos agir. E ainda assim percebo que os conhecimentos contemplados na Antiguidade Clássica nunca se adequaram tão bem como nos tempos modernos. Por vezes, me parece que os filósofos gregos não escreveram para eles mesmos, ou para o seu próprio tempo, mas sim para o nosso. Nas palavras de Sócrates, condenado pela maioria:  

  

“Logo, meu excelente amigo, não é absolutamente com o que dirá de nós a multidão que nos devemos preocupar, mas com o que dirá a autoridade em matéria de justiça e injustiça, a única, a Verdade em si. Assim sendo, para começar, não apontas o bom caminho quando nos prescreves que nos inquietemos com o pensamento da multidão a respeito do justo, do belo, do bem e de seus contrários. A multidão, no entanto, dirá alguém, é bem capaz de nos matar.” *  

  

*Sócrates em “Críton” – Platão (Diálogos) 

 

alemack