Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda semana, um acadêmico publicará um texto em fomento da literatura. Hoje o JP3 publica o texto de Vitor Hossu Ferreira (cadeira nº 38 – Patrono Fiódor Dostoiévski), matriculado na Faculdade de Direito Mackenzie. Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Criação Auto-Destrutiva (ou como viver na sombra de gigantes)

 

Vitor Hossu Ferreira

 

A atenção de minha entidade física reduz-se apenas ao som da água que escorre pelo chuveiro. Encontro-me incapaz de discernir se o líquido carreado em minha face provém do filtro metálico ou de mera manifestação do meu sistema límbico. A pressão exercida sobre minha pele e o vapor contribuem para que eu sinta a integralidade de minha carne derretendo aos poucos.

Questiono-me, novamente, quando e como fui parar em tal vala.

Rememoro do exato momento em que vislumbrei criar um conceito, uma ideia intrinsecamente nova e pertinente à humanidade. Relembro que, ato contínuo a este pensamento, veio à minha mente a questão atinente ao fato de que tudo o que produzo e realizo, torna-se indiretamente mera cópia de alguma abstração imaginada por outro ser humano, quaisquer seja o lugar que habita.

Mordo meus lábios. O gosto de ferro desce a minha garganta e questiono-me acerca da razão de tal bloqueio. Vem a mim, então, a resposta: somos animais racionais, indivíduos de carne e osso que estão fadados a realizar a mesma tarefa e pensar de forma padronizada – com exceção às pequenas anomalias mentais e genéticas, provenientes de características geno e fenotípicas.

Retorno brevemente à Escola de Bauhaus, na qual se valorizava o aspecto criador do aluno… característica notadamente olvidada tendo pelos muros atualmente levantados pela arte. Enfrenta dois hercúleos desafios o artesão hoje: “O monstro de Frankstein advindo da cópia da cópia” e o fato de que acaba por subir em ombros de gigantes e se reprimir apavoradamente – isso quando não ocorre por viver na sombra destes.

Ao se amalgamar à globalização, o homem medíocre tomou consciência da evidente angústia do homo sapiens sapiens e sua inserção no século XXI, haja vista à ausência do sentimento de pleno descobrimento que fora outrora concebida à humanidade. Assombrou-se ainda ao aperceber que grande parcela de seus atos provém de (in)direta influência de atividade ou modismo praticado por – pelo menos uma – de todas as pessoas que se encontram inseridas no meio cibernético.

Esvaio-me enquanto a fervente água devora meu corpo. Mentalizo como aparecerei – se figurar como sortudo – em eventual manchete de jornal: “Mais um homem é encontrado morto após resolver se banhar em água quente. O motivo? Suspeita-se que seja o mesmo da causa de suicídios da cidade inteira: a angústia de existir perante a incapacidade de inovar”.

A hora da estrela nunca chegara.

 

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