Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje o JP3 publica o texto de Vitor Hossu Ferreira (cadeira nº 38 – Patrono Fiódor Dostoiévski), aluno da Faculdade de Direito Mackenzie. Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

A ideia de amor para alguém que não existe

 

Vitor Hossu Ferreira

 

O Pálido Sol iluminava aquele quarto, no qual se abrigava uma figura quebrada. Ela sentia prazer em se arrastar e se apoiar em suas diversas paredes e armários. Deleitava-se, ainda, ao se deitar no piso e ao contemplar as diversas formas que vinham à sua cabeça enquanto observava aquele alabastrino teto.

Era um bom cômodo. Era uma torpe existência.

Quando resolvia pensar, se acomodava em uma das quinas daquele gélido ambiente e prostrava-se de maneira integralmente contorcida, olhando para os movimentos de seus dedos do pé.

Nem ela mesmo sabe – ou ao menos nós tomaremos conhecimento de como veio a pensar nisso –, mas dessa vez a pobre criatura, em sua medíocre inteligência, buscava entender o amor em sua concepção em si.

Para isso, conseguia tomar as memórias e sentimentos de outrem e utilizá-los da maneira que mais lhe interessava. Lembranças de pessoas que viveram em imemoriais épocas, lembranças de pessoas que viveram em épocas imemoriais, lembranças de pessoas que viveram mais do que deveriam e lembranças de indivíduos que simplesmente retardaram o próprio viver – apesar disso, era tudo fixo e organizado em sua cabeça.

Paradoxalmente à rigidez dos fatos, encontrava-se a confusão de sentimentos presente desde o primeiro dia da existência do ser humano em si, tais quais: a confusão entre “amor” e desejo, a confusão entre “amor” e carências físicas, a confusão entre “amor” e as mentiras do psicológico, a confusão entre “amor” e a necessidade de saciar o apetite de mostrar algo falso e se sobressair entre todos os seres humanos.

Posteriormente, era capaz de ver seres humanos que tentavam manter o “amor” ou a mentira advinda de “pseudo-amores” e, nesse caso, seu objeto de estudo eram as inacabáveis traições, mentiras, agressões, frustrações, dentre outras várias maneiras que o ser humano utilizava para se autoflagelar.

Para aquela frágil e contorcida criatura, “amor” poderia encontrar seu sinônimo em identificação. Como duas pessoas poderiam construir algo se nada possuíam em comum? Como duas pessoas poderiam possuir qualquer tipo de relacionamento quando não se colocavam no lugar de cada qual? Como duas pessoas poderiam sentir algo em meio ao pandemônio que habita a cabeça de um reles mortal?

Mas quem disse que todas as formas de “amor” que previamente entrara em contato não poderiam caracterizar a ideia de “amor” em si? Estava sendo hipócrita e totalmente unilateralista.

Ao fim desta falsa dissertação, queria ser capaz de dizer que finalmente sou estou apto a compreender o significado de “amor” e que, para mim, não passa de outro sentimento que pode ser perfeitamente delimitado. Mas não sou. As constantes generalizações e transmutações advindas de eras e culturas diversas fez com que este conceito se tornasse a mais sublime forma de aberração perante os mortais, uma espécie de nova maçã do Éden: presente diante o campo de visão de todos, mas jamais tragável.

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