Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje o JP3 publica o texto de Victor Castilhano Viterbo (cadeira nº 8 – Patrono Fernando Pessoa), aluno da Faculdade de Direito Mackenzie. Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Sem Deus nem Piedade

 

Victor Castilhano Viterbo

 

Se o segredo está fora, pois que eu possa escancarar a porta.

E embora pareça bobagem para alguns se admitir o que se é, há aqueles que têm como o esforço de uma vida a mera chegada a tal conclusão, quem saberá então o esforço hercúleo que é comunicá-la aos olhos judiciosos do mundo

Falo pois, de um assustador segredo que surge quando já não se comunga mais das crenças em que se foi inserido, quando no fundo se está desconectado daquela visão de mundo dos que estão ao seu redor. E dos anos que se passam com medo de que saibam que entre eles há alguém diferente, alguém que se atreveu a buscar além do que lhe foi dado como suficiente.

Para os que ousam olhar além, chega o irreversível momento em que não se pode mais viver ao mesmo tempo com esses dogmas e com a recém-descoberta ciência, a filosofia. Ao menos não para quem se recusa a distorcer um ou outro para que se encaixem artificialmente. É Quando essa comunidade se torna opressiva, quando sua (i)lógica se torna limitante, quando a verdade e a certeza se tornam mais importantes do que a salvação. Meu conhecimento é melhor porque é meu, porque chego a ele por mim mesmo sem precisar simplesmente acreditar.

Esse é o momento em que as palavras das orações, se é que um dia fizeram sentido, já não têm mais significado, quando o que sobra daquilo que um dia foi bússola existencial são apenas versos secos, desconexos, escritos por pessoas que muito menos sabiam qualquer coisa sobre o universo e sua moral.

O que sobra então, quando se mata uma moral? Antes de tudo o alívio de se despir das pesadas correntes que são seus pecados, suas culpas, suas punições. E depois o vazio. Vazio absoluto de ética e de significado. O completo relativismo que sabemos ser a verdadeira face do universo.

Mas quem sabe, face a esse abismo, haja um pequeno resquício do que havia antes, não na forma de consolo ou de resgate, mas numa vontade que há de tornar esse vazio um pouco menos inóspito. Tornar o mundo o melhor possível para mim e para os outros, mas não em espera de uma recompensa, não com medo de um castigo. Pura e simplesmente em meu próprio nome, em nome da humanidade.

Aqueles que não hão de se preocupar com a próxima vida têm todos os motivos para tentar fazer desta um paraíso, e nenhum dos freios que os impeçam de tentar. E depois disso o caminho está muito claro: ser seu melhor eu, não por Deus mas por si mesmo, pois, como já bem sabia o escritor, não se precisa de Deus para ser bom:

I am neither Christian nor Jewish, nor Buddhist, nor a conventionally religious person of any sort. I am a humanist, which means, in part, that I have tried to behave decently without any expectation of rewards or punishments after I’m dead.

-Kurt Vonnegut

E nessa moral sem martírio vou vivendo em frente, sem mestre e sem chicote. Perfeitamente intacto sem tampouco causar o menor mal a ninguém

Sem qualquer certeza sobre se sou ruim ou se sou bom, e sem saber se tampouco importa. Também já vi muitos bons fazerem coisas ruins. Minha liberdade fala mais alto que meu medo, e minha vida pertence antes a mim que a um criador e suas amarras.

Espero que essa explicação seja suficiente, e que fique claro que não estou de todo preocupado em servir ao que os outros me impuseram como “Moral”, com letra maiúscula. Vivo num universo vasto e diverso, e para qualquer ser que tenha visto mais que seu próprio quintal, a ideia de haver para ele um livro de regras é quase cômica.

E se ainda após isso me sobrar o castigo, está na hora de se perguntar se o que Deus quis de mim afinal era bondade ou devoção.

 

“Para se tornar Deus, basta ser livre na Terra”.

Albert Camus

 

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