Inauguramos com o texto “Preta, Jamais Te Vi no Mack”, um relato de uma estudante negra mackenzista, a nossa parceria semanal com o Coletivo Negro AfroMack. Toda quinta-feira publicaremos um novo texto. Não deixe de acompanhar essa iniciativa que promete.

 

Preta, Jamais Te Vi no Mack

 

Talita Oliveira

 

Foi uma das melhores notícias da minha vida saber que estudaria no Mackenzie diante da conquista suada da bolsa integral Prouni! Extasiada, imaginei que começara ali a expansão do meu conhecimento junto da amplitude de novas relações.

Dizem que criar expectativas é uma das mazelas do ser humano e posso comprovar que este foi um grande agravante em minha vivência acadêmica, mas como uma linda jovem negra poderia errar ao gerar as melhores das perspectivas se aquele lugar era a idealização dos sonhos de toda uma vida, aquele de estar entre os melhores e com isso construir uma admirável carreira? Mesmo sem nenhum apoio, nem incentivo, qual seria o erro em pensar que a partir desta conquista, minha vida poderia ser transformada para patamares bem melhores daqueles vividos? Parece até muito óbvia a linearidade deste raciocínio, concorda? Sim, eu tinha tudo para me dar muito bem, até que desde meu primeiro dia de aula, iniciei na experimentação do quão cruel o mundo pode ser. É obvio que enquanto mulher negra, sei bem o que é a agressão do racismo desde muito cedo, mas nunca imaginei que seria algo tão frequente e perseguidor nesta Universidade, desde os olhares de estranhamento e desprezo dirigidos desde ao pisar na calçada para entrada, até o findar da aula e caminhar rumo aos portões de saída.

O nível de repulsa na grande maioria dos olhares que me acompanhavam, sugeria claramente que aquele espaço não me pertencia e muitas vezes já fui questionada “você estuda aqui, mesmo? ”. Esta dúvida surgia tanto de funcionários quanto de alunos, pois algo dizia a eles que não poderia uma mulher negra estudar numa Universidade de Elite, feito o Mackenzie. Isto, sem descrever aqui as tantas outras situações desagradáveis que passei muito mais no Mack do que em qualquer outro lugar deste país dilacerado pelo racismo estrutural e institucionalizado.

Confesso que com o passar dos anos, este ambiente hostil foi agredindo minha psique de tal forma, que adoeci. Hoje, consigo perceber que o ápice resultante na minha depressão, foi criar grandes expectativas para aquele que imaginava ser um dos melhores momentos da minha vida ao conviver com pessoas que teoricamente providas de uma “boa educação” poderiam compartilhar suas boas experiências comigo, de idealizar que uma Universidade tradicional no currículo, abriria grandes oportunidades de trabalho, mas infelizmente não foi bem assim, o mercado continua sendo racista independentemente de Instituições renomadas.

Reconheço que vou levar esta bagagem como completo aprendizado do quanto é necessário sermos resilientes e não deixarmos que os racistas acabem com nossos sonhos, mas o intuito principal deste texto é de alertar a você negrx que está lendo, para que não se iluda imaginando que seu ingresso no Mackenzie será tudo aquilo que mencionam, por aí, porque mais uma grande luta estará apenas começando e desejo imensamente que você não desista e vença esta batalha até o fim! Ah, preta linda! Devo salientar que a solidão da mulher negra assola e também vai tentar destruir você. Continuará sendo invisibilidade em muitos aspectos, até mesmo naquele feed do Te Vi no Mackenzie, possivelmente você jamais será vista, mas fique firme, não deixe sua autoestima abalar, apegue-se a outras negras empoderadas do coletivo AfroMack, lembrando que precisamos ser a resistência inspiradora das próximas gerações. Sugiro que cuidem da saúde com muita responsa para conseguirem focar em contrariar as estatísticas e fazer história neste espaço e na vida! Axé

afromack