Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, excepcionalmente quarta-feira, o JP3 publica o texto de Bruna Bianca Brandalise Piva (cadeira nº 11 – Patrono Evandro Lins e Silva), aluna da Faculdade de Direito Mackenzie. Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

Quando somos “nosotros”

Bruna Bianca Brandalise Piva

Nos últimos tempos, os discursos de ódio estão em evidência. Desde ameaças contra personalidades a favor da legalização do aborto à política anti-imigratória de Trump, o populismo conservador vem aparecendo com maior relevo e a empatia parece ter perdido espaço para o ódio que temos do “outro”.

Mas ao invés de falar sobre o ódio que vejo todos os dias nas redes sociais e nos noticiários matinais, resolvi falar sobre uma das experiências mais empáticas da minha vida, minha participação no GDUCC – Grupo de Diálogo Universidade-Cárcere-Comunidade, projeto de extensão da Faculdade de Direito da USP.

Atualmente, encabeçado por Alvino Augusto de Sá e Sérgio Salomão Shecaira, livres docentes em Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da USP, e coordenado por ex participantes notórios, as atividades do grupo são divididas em quatro encontros teóricos e cerca de doze encontros em uma das penitenciárias “conveniadas” (que permitem o acesso do grupo para a realização de encontros semanais com os presos).

Esses encontros são marcados por dinâmicas que vão muito além da mera interação entre pessoas notadamente diferentes. São fragmentos de uma experiência que levamos para a vida toda. É impossível descrever com palavras o significado ou o objetivo-fim do GDUCC, mas tentarei relatar abaixo um pouquinho do que foi essa experiência pra mim.

Desde que pisei no chão cru da Penitenciária de Sant’Ana tentei de alguma forma perpetuar cada momento especial de cada encontro, e foi assim que o quadro branco pendurado na sala de estar foi sendo preenchido por nomes estranhos, espalhados por todo lugar, pequenos trechos de conversas, sonhos, galáxias distantes e o que mais eu pudesse guardar delas.

Da visita institucional ficou o frio da casa como prisão. “A gente tenta deixar a nossa casinha o mais confortável possível. É assim, a gente entra nessa (do crime) para dar um futuro melhor para os filhos e acaba aqui, longe deles… dinheiro não é tudo nessa vida”, disse a simpática boliviana que nos recebeu naquele que vinha sendo seu lar nos últimos oito anos, uma cela minúscula, pouco maior que um elevador, com paredes rústicas e utensílios domésticos improvisados.

Nosso primeiro encontro efetivamente com o grupo no cárcere foi no mínimo uma surpresa para todo o grupo e não poderia ser diferente, afinal foram elas que protagonizaram a cena e nos deram as boas vindas com muitas histórias sobre a seletividade penal e a angústia daquelas que ainda não se conformaram com seu destino naquele lugar. Elas desabafaram, nós absorvemos a angústia, o que fez daquele um dos encontros mais sombrios.

Mas as surpresas não pararam por aí, a cada novo encontro uma nova história ia se formando em minha mente. Lembro-me de um encontro muito gostoso, logo no início das reuniões. A dinâmica resumia-se em criarmos uma cidade perfeita, e foi durante a apresentação de um dos grupos que o silêncio pairou para dar espaço à voz de “D”, uma mulher negra, forte e dona de um carisma sem igual. Ela se levantou e disse com uma voz sábia e perspicaz: “Na minha cidade terá habitação para todos. Veja só, eu já fui moradora de rua e essa com certeza deve ser a prioridade de toda cidade. Também terá hospitais destinados especificadamente às mulheres e idosos, áreas de lazer e recreação. Essa eu vou falar baixinho, na minha cidade vai ter delegacia, isso porque é necessário, senão o que faremos quando sofrermos violência doméstica, por exemplo? Também vai ter cartórios e tribunais, pois gente a justiça não trata só de crime, tem direito de família, trabalho, herança, etc. E por fim, eu quero deixar registrado aqui que eu vou mandar uma carta para o Temer com o plano da minha cidade para quando eu sair daqui eu poder me mudar pra lá”.

Os aplausos que ecoaram na sala eram reflexo da esperança que emergia de cada projeto de cidade que era apresentado, alimentado pelo sonho de viver num lugar melhor. Mais que isso, por trás de cada projeto haviam cicatrizes profundas de uma realidade marcada pela ausência do Estado.

Sinto que nossos laços foram sendo construídos como castelinhos de areia, andar por andar, com muito cuidado, e quando percebemos elas já se importavam com o nosso bem-estar e nós com o delas. Era natural, sentíamos parte de um único grupo, formado por pessoas que como todas as outras tem desejos, problemas, humor determinado, sonhos e medos.

Se eu tivesse que escolher o encontro em que ficou mais nítida a ternura e sinceridade dessa relação, eu diria que foi aquele coordenado por elas, onde o único objetivo era dar para nós o melhor que havia em cada uma, a esperança, a energia positiva e a capacidade de sorrir.

Por fim, acho que o último episódio dessa saga resume o que guardei dessa experiência. Num lugar de privações, restrições e sofrimento, elas nos deram a coisa mais cara que tinham, o amor singelo da amizade. Quando li pela primeira vez a “Oração aos Amigos”, que elas nos entregaram no fim do último encontro, me peguei refletindo sobre solidariedade. Quer dizer, todas aquelas mulheres estavam feridas, com saudade da ligação da mãe, do beijo do marido ou do abraço do filho que deixou para trás, com saudade da comida caseira, de um brigadeiro ou coisa assim. Todas presas numa saudade sem fim. Mas ainda assim, com tanta dor real, elas rezaram por nós, com problemas tão pequenos e sonhos tão próximos.

Assim, concluo meu texto com a mesma palavra que escolhi na entrevista (última etapa do processo seletivo para participar do projeto de extensão), o GDUCC para mim se resume em ACOLHIMENTO.

No quadro branco ficaram os nomes… as dores…. os sonhos. No coração ficou a ansia de continuar lutando por uma cidadania mais sólida e pelo fim do uso do sistema de justiça criminal como instrumento de genocídio das classes subalternas.

Se você quiser fazer parte dessa história, fique de olho na publicação dos próximos editais, que ocorrem, normalmente, nos meses de março e agosto. Para maiores informações, acesse o edital do último processo seletivo (2018 – 1º semestre): http://www.direito.usp.br/extensao/Arquivos/2018/EDITAL_GDUCC_2018.pdf.

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