História da senhorita Grão de Pó, bailarina do Sol

 

Tradução livre do conto de Teresa de la Parra “Historia de la señorita Grano de Polvo, bailarina del Sol”, por Ana Paula Ricco Terra (ocupante da cadeira nº 6 – Patrono Lygia Fagundes Telles). Texto a ser discutido no próximo encontro da ALEMack, que acontece dia 30 de junho (sábado), às 15h00 min., na rua Piauí, 368. Venham participar!

 

Era uma manhã de final de abril. O bom tempo em delírio, contrastava ironicamente com um pobre trabalho de escrivaninha que segurava entre minhas mãos aquele dia. Assim que levantei a cabeça, vi Jimmy, meu boneco de feltro que se balançava sentado de frente para mim, apoiando as costas na coluna do abajur. A cúpula parecia servir-lhe de guarda-sol. Não me via e seu olhar, um olhar que eu não reconhecia, se fixava com estranha atenção em um raio de sol que atravessava janela.

– “O que você tem, querido Jimmy?” – perguntei-lhe – “No que você está pensando?”

– “No passado” – respondeu abruptamente sem me olhar, para depois voltar a desaparecer em sua contemplação.

E como temesse ter me machucado pela brusquidão da resposta:

– “Não tenho motivos para te esconder nada” – replicou – “mas, por outro lado, não há nada que você possa fazer… ai!… por mim” – e suspirou de forma que me partiu o coração.

Tomou algum tempo. Deu meia volta nos dois círculos de feltro branco que rodeavam suas pupilas negras e que são a alma de sua expressão. Passou a mão nos olhos até alcançar o ponto da atenção íntima, a fantasia melancólica. E me disse assim:

– “Sim, penso no passado. Penso sempre no passado. Mas hoje especialmente, essa primavera morna e insinuante reanima minha memória. Quanto ao raio de sol que crava aos teus pés, preste bem atenção, o tapete transfigurado, esse raio de sol se parece tanto a aquele outro em que encontrei pela primeira vez a… Ah! Sinto que preciso suprimir com sua complacência a pobreza das minhas palavras!”

– “Imagine a criatura mais loira, mais argentina, mais loucamente etérea que nunca antes havia dançado sobre as misérias da vida. Apareceu e, instantaneamente, minha fantasia se ajustou a sua presença milagrosa. Que encanto! Descia pelo raio de sol, pisando com sua presença deslumbrante aquele caminho de claridade que acabava de me fazer recordá-la. Suspiros imperceptíveis a nossa sensibilidade grosseira animavam a seu redor uma população de seres semelhantes a ela, mas sem sua graça soberana nem seu atrativo fulminante. Saltitava com todos um instante, se enlaçava em suas rodas, escapava hábil por um buraco, evitava com um salto o abraço torpe do monstro-mosquito bêbado e pesado como uma fera… Enquanto um balanço insensível e doce lhe ia trazendo até mim. Meu Deus! Como era linda!”

– “Não tinha nenhum rosto propriamente dito. Te digo que na realidade não possuía uma forma precisa. Mas roubava do sol com vertiginosa rapidez todos os rostos que algum dia eu poderia sonhar e que eram precisamente os mesmos com os quais sonhava quando pensava no amor. Seu sorriso ao invés de se limitar as dobrinhas da boca se estendia através de todos os seus movimentos. Assim, aparecia, tão de repente loira como o reflexo de uma moeda, tão rapidamente pálida e cinza como a luz do crepúsculo, já escura e misteriosa como a noite. Era, por um lado, suave como veludo, louca como a areia ao vento, volátil como a crista de espuma da onda que quebra. Era mil coisas mais rápidas que minhas palavras não conseguiam seguir sua metamorfose”.

– “Fiquei um longo momento observando-a invadido por uma espécie de estupor sagrado… De repente deixei escapar um grito… A bailarina etérea ia tocar o chão. Todo meu ser protestou frente a ignomínia de semelhante encontro, e me precipitei”.

– “Meu movimento brusco produziu extrema perturbação no mundo do raio de sol e muitos daqueles seres fantásticos se atiraram, creio que por temor, as alturas. Mas meus olhos não perdiam de vista minha amada. Imóvel, contendo a respiração, lhe observava com a mão estendida. Ah, alegria divina! A maior e a última da minha vida. Ela caiu nessa minha mão estendida. Renuncio a detalhar meu estado de espírito. Meu coração batia tão acelerado que na minha mão trêmula, minha senhora ainda dançava. Era uma valsa lenta e compassada de uma sensualidade infinita.”

– “Senhora Grão de pó…” – lhe disse.

– “Como sabe meu nome?”

– “Por intuição” – lhe respondi – “por… em fim… por amor.”

– “O amor!” – exclamou – “Ah!” – e voltou a dançar mas de um modo impertinente. Me pareceu que estava rindo.

– “Não dê risada” – lhe repreendi – “te quero muito. É sério.”

– “Mas eu não tenho nada de séria.” – replicou – “Sou a senhorita Grão de pó, bailarina do Sol. Sei muito bem que minha estirpe não é das mais brilhantes. Nasci em uma fenda do piso e nunca mais retornei para a minha mãe. Quando me dizem que é uma modesta sola de sapato, tenho que acreditar, mas nada me importa visto que agora sou a bailarina do Sol. Você não pode se apaixonar por mim. Se você se apaixonar, vai querer também me levar contigo e então o que será da minha vida? Tire sua mão um instante e coloque-a fora do sol”.

– “Lhe obedeci. Tamanha foi minha decepção quando na minha mão, reintegrada a penumbra, contemplei uma coisinha lamentável e sem forma, de um cinza duvidoso, toda ela inerte e achatada. Tinha vontade de chorar!”

– “Viu?!” – disse – “Está feita a experiência. Só vivo para minha arte. Volte a me colocar rápido no raio de sol.”

– “Obedeci. Agradecida dançou um instante na minha mão”.

– “Do que é feita sua mão?”

– “É de feltro” – contestei ingenuamente.

“É áspera!” – exclamou – “Prefiro muito mais meu caminho aéreo” – e tratou de voar.

– “Eu não sei o que me invadiu. Furioso, pelo insulto, além de pelo medo de perder a minha conquista, joguei minha vida inteira em uma decisão audaz. Será opaca, pensei, mas será minha. Peguei-a e a encerrei dentro da minha carteira que coloquei sobre o coração”.

– “Está aqui faz um ano. Mas a alegria fugiu de mim. Essa fada que escondo, não me atrevo mais a olhá-la, tão distinta sei que está daquela visão que despertou meu amor. E sem dúvidas prefiro conservá-la assim do que perdê-la completamente ao devolver sua liberdade”.

– “Então, ainda lhe tem em sua carteira?” – lhe perguntei mordido de curiosidade.

– “Sim. Quer ver?”

Sem esperar minha resposta e porque não podia aguentar mais seu próprio desejo, abriu a carteira e tirou a que se chamava “a múmia da senhorita Grão de Pó”. Fiz como se a enxergasse mas só por amabilidade, pois na verdade, não via absolutamente nada. Houve entre Jimmy e eu um momento de silêncio penoso.

– “Se quiser um conselho” – disse por fim – “te dou esse: dê a liberdade a sua amiga. Aproveita este raio de sol. Ainda que não dure mais que duas horas, serão duas horas de êxtase. Isso vale mais do que continuar no martírio em que vive”.

– “Acredita nisso de verdade?” – interrogou, olhando-me com ansiedade – “Duas horas. Ah, quantas tentações sinto! Sim, acabemos. Que seja!”

Assim dizendo, tirou da carteira a senhorita Grão de Pó e voltou a colocá-la no raio de sol. Foi uma ressureição maravilhosa. Saindo da sua letargia misteriosa a bailarina se lançou louca, imponderável e como espiritual, idêntica a descrição entusiasta que me tinha feito Jimmy. Compreendi no momento sua paixão. Tinha que ver a ele imóvel, boquiaberto, ébrio de beleza. A voluptuosidade amarga do sacrifício se unia a alegria puríssima da contemplação. E para dizer a verdade, seu rosto me parecia mais belo que a dança da fada, pois estava iluminado de uma nobreza moral estranha a bailarina falaciosa.

De repente, juntos, exalamos um grito. Um inseto enorme e estúpido, inseto grande como a cabeça de um alfinete, ao abrir a boca acabava de tragar a senhorita Grão de Pó.

O que mais posso dizer agora?

O pobre Jimmy, com os olhos fixos considerava a extensão do seu deleite. Ficamos um bom tempo silenciosos incapazes de encontrar uma forma de expressar, meu remorso e seu desespero. Não teve nem para mim, nem para a fatalidade uma palavra de reprovação, mas vi muito bem como através do pretexto de levantar os círculos de feltro que graduam a expressão de suas pupilas, enxugou furtivamente uma lágrima.

 

Nota da tradutora: tentou-se manter a maior semelhança estética possível com o texto original. Assim, busca-se reproduzir a leitura corrida, quase sem pausas, e a linguagem coloquial que permeiam o texto, de modo a tornar a leitura mais agradável. 

Link para o texto original: http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/historia-de-la-senorita-grano-de-polvo-bailarina-del-sol–0/html/ff64e924-82b1-11df-acc7-002185ce6064_2.html

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