Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Guilherme Ferreira Leite Belmudes, ex-aluno da Faculdade de Direito Mackenzie que ocupava a cadeira nº. 28 (Patrono Umberto Eco). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

“Marcha da Maconha”

Guilherme Ferreira Leite Belmudes

Acordou mais cedo para abrir a janela do quarto, sentiu o ar fresco da manhã e quase se afogou no azul do céu. O silêncio ainda era praticado àquelas horas, razão pela qual redobrou a maciez de seus passos até fora do apartamento. Os degraus pareciam ter diminuído, permitindo maior fluidez no andar e, assim, deslizou até o térreo. Por fim, fechou atrás de si a ruidosa porta que, desta vez, conteve os fantasmas da desídia.

Ao descer a rua, cruzou um sujeito apressado que andava olhando para as esquinas. Quase lhe deu bom dia. Arrependeu-se poucas pisadas depois, pensou em retornar e alcança-lo para entregar o cumprimento, mas deteve-se por uma nova ideia. Dar- lhe-ia boa noite próxima vez que o encontrasse.

Garotos corriam em direção à praça, conversas se entabulavam junto à banca de jornal e, no fim da curva, o floricultor adentrava a padaria. Recebeu sua comanda a tempo de ver a padeira, que trazia ao cabelo uma flor recém-colhida, retirar do forno pequenas baguetes de parmesão. Oh, sim, pelo sorriso oferecido pela jovem ao entregar o saco de pães, pôde perceber que as baguetes eram feitas neste horário, pois era quando o floricultor se dirigia à padaria, e não o contrário. Laurita adoraria esta informação. Pediu também suas baguetes e adentrou a rua.

Voltou por outro caminho para não correr o risco de reencontrar as mesmas calçadas. Entretanto, em sua direção veio um conhecido que lhe saudou e questionou “Como está a pequena?”, “continua igual” – respondeu. Recebeu palavras de conforto e agradeceu, mais por ter o companheiro lhe poupado maiores entrevistas que pelas considerações à sua menina. Após certo tempo, o significado das palavras se perdem de suas formas. Seguiu em frente, desta vez seus passos não reprovavam o chegar. Naquela manhã, a volta era ida.

Destrancou o apartamento ressuscitando intenções a muito mortas em seus lábios e, subitamente, inclinou-se ao quarto sem nem se lembrar de deixar as compras sobre a mesa. Estirada na cama, sob o sol que derretia da janela, ela estava imóvel, de sorriso terno e brilho nos olhos. Alguém de fato havia se afogado no azul do céu.

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