Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Vitor Hossu Ferreira, aluno da Faculdade de Direito do Mackenzie que ocupa a cadeira nº. 38 (Patrono Fiódor Dostoiévsky). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

“…”

Vitor Hossu Ferreira

Meus olhos e tímpanos já não mais respectivamente ardem ou perfuram a si mesmos quando escutam o som que anuncia o começo de mais um dia. A relação entre o clima frio do lado de fora da embaçada janela e o cobertor que me envolve são intrinsecamente nítidas: o duelo cujo escopo reside em manter-me (ou não) em meu leito.

A escolha, por ora, é sábia e excessivamente (ou unicamente) lógica. Desmonto-me ao chão e arrasto-me em direção ao chuveiro, já resta evidente que minha mão viria a deslizar, fazendo com que o licor matinal de classe média escorresse por aquela torneira e finalmente envelopasse meu corpo.

Tudo está escuro agora.

Vêm à minha mente diversas cenas de determinados acontecimentos. Momentos de minha rotina e fragmentos de minha memória unem-se e formam apenas uma coisa; a ausência de raciocínio é a única certeza que me resta.

Mas não me vou reduzir a meras abstrações, pelo menos não neste instante.

Quinze minutos. Novecentos segundos. Um quarto de hora. Todas denominações do mundo exterior não afetam o que está por vir e o que instantaneamente passa por minha mente. A questão matinal deste dia resume-se na falta de sentimento ao próximo.

Por quê? Por que o ser humano como indivíduo ou membro de uma sociedade é tão individualista? Ou melhor, qual a razão da ausência de empatia que deveria percorrer o sangue do homem? Além do mar de sentimentalismo barato e do oceano de pieguice, creio eu que sou capaz de compreender as respostas para estas questões…

A lógica do indivíduo em se manifestar perante certos atos deriva de diversos motivos aos quais não consigo ater-me explicitamente neste breve momento de reflexão, mas se pudessem ser consideradas as circunstâncias das realidades que o envolvem, como: a frustração diária, a forma como se encontra a mercê de uma cadeia incontrolável de acontecimentos e, também (mas não somente), a maneira pela qual tem que se manter passivo perante inúmeras situações de sua rotina, etc. Talvez e, somente talvez, conseguiriam essas condições serem devidamente explicadas.

Por que o amado se comporta de maneira tão unilateral? Ou um chefe profere exorbitantes e absurdos pedidos em breve oito horas de trabalho? Tudo isso provém não só de diversas questões internas, mas nevralgicamente de um motivo torpe externo, atinente ao fato de que a frieza e a falta de empatia trouxeram a humanidade a este patamar de evolução onde não se é possível verificar qualquer tipo de dicotomia. Relações de cadeia e mentiras constituem a farsa que é o ser humano, a ébria criatura que vislumbra não ser.

Os quinze minutos extinguiram a certeza de qualquer (breve) sensação de calmaria e a água que agora escorre não provém apenas deste chuveiro.

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