No último dia 07/03/2018, o Comando Vermelho Mackenzista (CVM) completou 20 anos de história. Para comemorar as duas décadas de camisa vermelha e branca, o JP3 foi atrás de uma das pessoas que, sem dúvida, merecem um capítulo exclusivo na história da Faculdade de Direito do Mackenzie: Hélio Barthem, um dos fundadores do Comando. Abaixo, você confere a entrevista inédita com esse mackenzista que entrou no Direito-Mackenzie em 1996 e que hoje mora em em Huntington Beach, na Califórnia.

JP3 – Como foi a ideia de fundar o Comando?

Hélio – Mais ou menos um mês depois de ter entrado no Mackenzie, houve uns jogos jurídicos especiais em Águas de Lindóia, em que, além de nós, participaram PUC, USP e FMU. Acho que nossa escola levou mais gente, não sei, mas das pequenas torcidas que estavam lá, a nossa era a maiorzinha. Chegando em abril / maio do outro ano, vieram os Jogos Jurídicos Estaduais, edição de São José do Rio Preto (1997). Com a memória dos jogos de setembro de 1996, imaginei que dominaríamos as arquibancadas em Rio Preto, mas quando chegamos lá, dentre as grandes escolas, éramos – de longe – a menor e menos comprometida torcida. Fiquei surpreso e, ao mesmo tempo, indignado. Conversando com os mais antigos, fui saber que aquela era a realidade da nossa escola e que, em anos anteriores, chegamos a passar certo sufoco nas arquibancadas. Quando veio 1998 e os jogos de Americana apareceram no calendário, fiquei preocupado em repetirmos o desempenho horroroso de Rio Preto e comecei a conversar com alguns amigos da Faculdade sobre o assunto. Era um pessoal que tinha o mesmo receio que eu. No caso desses amigos, o cenário era ainda pior, pois eles eram atletas da Faculdade e tinham que entrar em quadra com a maioria contrária na arquibancada, o que é muito ruim. Então, numa daquelas noites de MacFil “após” as aulas e provavelmente depois do primeiro engradado, tivemos a ideia de formar uma torcida. Neste dia fui dormir achando que todo mundo ia esquecer do assunto rapidinho. Mas já no dia seguinte, fizemos nossa primeira reunião. O Comando foi fundado oficialmente em 7.3.1998 (créditos ao Renato Pimenta, aluno da Arquitetura na época, que desenhou nosso primeiro logo).

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A esquerda, Hélio. A direita, Bruno Sader, em 2013, durante as comemorações dos 15 anos do Comando.

JP3 – Quem participou da fundação?

Hélio – A coisa começou mesmo com 4 pessoas, as que estavam no MacFil na noite do dia 7.3.1998. Além de mim, estavam o Rodrigo Zidan, que havia presidido a Atlética em 1996, o Érico Duarte, que viria a presidi-la em 2000, e o Renato Pezzotti, presidente do ano de 1998, maior entusiasta do projeto. Aliás, eu diria que se não fosse ele e o engajamento dele na história, dificilmente a conversa teria se prolongado. Na realidade, todos tiveram participação fundamental na criação e na sustentação do projeto. Eu era o responsável por organizar a bateria e de alguma forma liderar a torcida; o Érico era quem abastecia a torcida com as músicas, puxava os cantos e era um dos poucos alunos que já sabia tocar um instrumento; o Renato, que também virou ritmista, era o responsável financeiro e, como presidente, fazia o “meio-de-campo” com os demais diretores da Atlética; e o Zidan, o mais antigo do grupo, que nunca tinha tocado nada, mas até em bateria de escola de samba acabou desfilando uns anos depois (acreditem, isso não era assim tão simples naqueles tempos…), era o que acalmava os ânimos da turma quando a temperatura subia. E de vez em quando subia mesmo! Que a memória não me traia, mas, além dos fundadores, tínhamos nas primeiríssimas gerações: Mariana Arruda (“Mari do Hand”), Fabiana Sá (“Fabi”), Líbia Xavier, Melissa Curi (“Mel”), Isadora Curi (“Isa”), Luciana Tzelepis (“Luzona”), Ulisses Junior, Sergio Carvalho (“Serjão”), Daniel “DanDan”, Eduardo D’Amato (“Edu Japonês”), Marcio Kalay (“Marcião”), Rodrigo Damaso (“Rodrigão”), Walter Sayeg (Waltinho”), Paulo Cauê, Gustavo Stella (“Feijão”), Roberta Andreoli (“Beta”), Rodrigo Franco Luís Henrique, Fernando Freitas e o Rodrigo Cavalheiro. Também não dá pra deixar de mencionar as nossa eterna rainha, a Flávia Costa (“Flavinha”) e aqueles amigos que não eram oficialmente da casa, mas que vestiam a camisa e topavam qualquer parada com a gente: Armando Junior (“Juninho”), Anderson Souza (“And”), Gustavo Waltenberg (“Gustavo Augusto”), Cesar Paschoal, Gilberto Pereira (“Giba”), Marcel Cesar, Eduardo Rodrigues (“Caju”), Rafael Duran (“Rafão”) e o Fábio Lacerda (“punk”). Tinha mais gente. Esses foram os mais presentes no começo.

JP3 – Quais foram as principais dificuldades no início?

Hélio – A primeira dificuldade foi o nome. Houve uma votação pra saber se a torcida se chamaria Força Jovem Mackenzista ou se seria o Comando Vermelho Mackenzista. Como a ideia era associar um nome pesado com as cores da Faculdade (vermelho e branco), nós quatro optamos pelo Comando Vermelho. Mas aí, na reunião com as diretorias da Atlética, surgiu uma corrente de que este nome soaria muito agressivo e politicamente incorreto (imagina isso hoje em dia!). Acho que perdemos a votação… mas como lá nos idos de 1998 o politicamente incorreto ainda tinha algum espaço, o nome ficou sendo esse mesmo. Operacionalmente, a missão parecia ser impossível. Primeiro, tivemos que juntar alguns abnegados mackenzistas que se dispunham a aprender a tocar os instrumentos. No início era um ou outro e era muito difícil. Não tinha youtube, vídeo, tutorial… era tudo na raça mesmo. A maioria era de atletas da faculdade. Também tinha uma dupla de primeira – além dos fundadores – que eram o Sergio Carvalho e o Guilherme Atik, ex-presidentes da Atlética em 1994 e 1995, respectivamente. Um cara fundamental do ponto de vista de união dos alunos em torno da torcida que era o Alê Youssef. Ele tinha sido presidente do então Diretório Acadêmico uns anos atrás e era Mackenzista pra caramba. Fechava muito com a gente. Eles não ficaram muito tempo, mas foram fundamentais pra que tudo fosse adiante. Além deles, tinham aqueles apoiadores incondicionais, que sempre acabavam parando pra tocar conosco ou pra curtir os ensaios. Os atletas entenderam que seriam os maiores beneficiados. Os do futebol, principalmente, participavam em peso. Ainda no operacional da torcida / bateria, outra coisa complicadíssima era ensaiar. Como fomos pioneiros no Mackenzie, a Faculdade custou a nos aceitar. Mesmo tendo aquela área gigante no campus, mesmo tendo as quadras cobertas e o ginásio, a praça… nunca o Mackenzie deixou a gente ensaiar. Na rua, era outro problema, pois onde quer que a gente fosse, chamavam a Polícia e mandavam parar por causa do barulho. E então, a solução inicial – que reconheço, era surreal – foi ensaiar dentro da sede da própria Atlética, que ficava no subsolo do Prédio 3, onde hoje fica a biblioteca, após o término das aulas da noite. Você pode imaginar a dificuldade, já que logo que começávamos, a segurança já vinha pedir pra pararmos. Nas duas, três primeiras vezes, a gente dava uma enrolada neles. Mas tinha uma hora que ficava difícil e tínhamos que parar de verdade. De todo modo, muita gente aprendeu a tocar nesse esquema aí. Ante a dificuldade, o Renato teve uma ideia brilhante. Teve uma festa da Atlética no Projeto Equilíbrio, que ficava ali em Pinheiros (hoje o lugar não existe mais, virou uma estação de metrô). Com a cerveja que sobrou da festa da quinta-feira, ele marcou um ensaio da bateria no sábado subsequente. Entrada franca pra todos os alunos e cerveja de graça. Lotou! A partir daí, os ensaios no Projeto Equilíbrio viraram tradição de sábado à tarde.

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Ritmistas do Comando, em 2013.

JP3 – Como foram os primeiros Jogos Jurídicos com o Comando?

Hélio – Ah, arrebentamos. Seguramente, posso dizer que, em termos de torcida, existe o Direito Mackenzie antes de 1998 e o Direito Mackenzie depois de 1998. Antes dos Jogos já rolavam comentários até nas outras escolas que o Mackenzie viria diferente naquele ano, mas acho que poucos acreditavam que seria tão intenso. Outras escolas tinham bateria, algumas maiores e melhores do que a nossa. Mas eram essencialmente ritmistas contratados de escolas de samba que não tinham qualquer relação com as faculdades. Quando chegamos com uma bateria esforçada e bem arrumada e com uma torcida apaixonada e empolgada, foi um baile. Virou uma febre; todo mundo ia assistir aos jogos. Nosso lado estava sempre lotado. Acredito que tenha sido o início de uma “era romântica” dos Jogos, pois a coisa era ali, no ginásio, no campo e nas festas relativamente pequenas, onde todos acabavam se conhecendo, o que era bem legal. Hoje, ao que eu sei, os Jogos Jurídicos se tornaram um grande negócio. Acredito que essa proximidade entre os alunos possa ter se perdido um pouco. Nos primeiros anos de Comando também surgiu um pessoal lá no Mackenzie que, sem exagero, acabou se tornando a geração de ouro da nossa faculdade. Acho difícil ter havido outra galera tão unida e representativa como a desses caras. Eles sempre alugavam uma casa na cidade dos jogos (normalmente não ficavam com o Comando) e faziam um barulho danado. Chamavam a casa de “saudosa maloca” em homenagem ao samba do Adoniram Barbosa. Lá tinha atleta, amigo de atleta, gente que não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, mas, acima de tudo, eram todos muito apaixonados pelo Mackenzie. Estavam sempre nos jogos e desde aquele ano nos apoiaram muito. E como eles sempre andavam em bando, quando chegavam na arquibancada faziam uma diferença enorme. Devem estar comemorando os seus 20 anos junto com o Comando também por esses dias. Eduardo Martinelli, Andre Azevedo, Marcos Guerreiro, Renato Ferreira, Juliano Pavan, Carlos Carbone, Augusto, João Vitor Evaristo… tem muito mais.

JP3 – Quais histórias legais você lembra dessa época?

Hélio – Nossa… inúmeras. Guerra de rojões no alojamento, a tomada de um ônibus porque o motorista estava bêbado, alojamento sem água, alojamento inundado, alojamento em uma loja de sapatos, um dos nossos imitando um galo de madrugada sentado numa tabela de basquete, muita festa, o drink da alegria, brigas com outras escolas, união com outras escolas, alambrado que virou grelha pra churrasco, prisões… e paramos por aqui! Pra ficar só com as publicáveis: Em 1999, nos Jogos Nacionais de Araraquara, a gente ajudou a Atlética dentro da quadra. Entre um jogo e outro ficamos sabendo que nosso goleiro do handebol, o Vladmir Bortz, que era um monstro… sério… era meio time… estava atrasado – se não me engano, ele estava lutando judô no horário – e não ia chegar a tempo da partida começar. O único jeito era atrasar o início do jogo. Decidimos invadir a quadra com a bateria e fizemos o maior carnaval com as outras torcidas lá no dia. O jogo atrasou um tempão e o cara chegou! 2001, em Guaratinguetá, acho que foi o melhor ano da minha geração. A bateria já estava bem maior e muito afinada. Era um show atrás do outro. E na constante correria de ir de um ginásio pro outro, chegamos atrasados pra um jogo de futsal feminino. Quando entramos no ginásio, nossa torcida já até estava grande, mas calada. E o time perdia por 1 a 0, acho que da Unesp. Juntamos todo mundo, foi chegando mais gente e fizemos uma festa histórica. Fumaça, bandeira, bandeirão, uma música atrás da outra… o time virou pra 5 a 1 no segundo tempo, foi demais! Ficamos, então, pra sequencia de jogos da tarde que, ao final, acabou sendo um dia bastante especial. O ginásio lotado e nossa torcida ocupou todo o lado em que estava, a parte de trás de um dos gols, e uma plataforma que ficava atrás do outro gol. Do outro lado, a PUC, a USP e a FMU tiveram que se espremer. Nesse ano, que era meu último como aluno, tive a certeza de que a semente havia sido bem plantada e que o Comando não acabaria mais. E neste mês de março de 2018, aquela (des) pretensiosa conversa de MacFil completou 20 anos! Tem gente aí no 2o, 3o semestres que não tinha nascido ainda! Nessa mesma época, eu e o Rodrigo Franco, pensando apenas em mais uma música pra arquibancada, escrevemos o que acabou virando umas espécie de hino da nossa escola, que é o “samba das calouras”. A gente escreveu a letra e adaptou tudo sobre a melodia de um samba da Unidos do Viradouro. Um ou dois anos depois, a música pegou de jeito e, ao que me consta, todo mundo sabe a letra e canta alto até hoje.

JP3 – O Comando participava, além dos Jogos Jurídicos, de quais atividades dentro do Mackenzie?

Hélio – Na realidade, não éramos tão bem-vindos pela Faculdade naquela época. Imagine você que alunos extremamente barulhentos, estampando camisetas e bandeiras com o nome de uma organização criminosa, não eram – nem de longe – o sonho dos diretores da Faculdade. De Direito! Nem no apitaço de fim de semestre, que hoje em dia a bateria vai completa, podíamos tocar. A gente pegava um ou outro instrumento pra fazer uma bagunça, mas logo a segurança pedia pra parar. Acredito, pois, que esse relacionamento tenha melhorado com o tempo. Fora dos jogos, portanto, só participávamos mesmo dos próprios eventos de ensaio da bateria e tocávamos nos jogos da FUPE quando a Atlética pedia pra a gente ir. Em 2001, quando me formei, a bateria tocou na colação de grau da minha turma. Não sei se ainda fazem isso atualmente, mas, além de festas em geral, sei que o Comando toca na maioria dos bailes de formatura atualmente.

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JP3 – Você mantém hoje contato com os atuais membros, acompanha as atividades do Comando?

Hélio – Estou ficando velho… e o distanciamento acaba sendo natural, até por estar morando fora do país há 1 ano. Sempre procuro saber, sigo o Comando nas redes sociais e tenho bastante contato com algumas gerações posteriores à minha. Mas ainda não tive o prazer de conhecer os integrantes atuais. Ao que me dizem, a garotada vem fazendo um ótimo trabalho!

JP3 – Qual a importância você dá hoje, após tantos anos, para essa época da sua vida? Quais foram os aprendizados desse período?

Hélio – Do ponto de vista de aprendizado, foi um excelente laboratório de liderança e gestão. Confesso que nunca parei pra pensar nisso, mas tomar conta de todos, inventariar o material, gerir os recursos, cuidar pra que toda a logística desse certo, fazer alunos que nunca haviam tido contato com um instrumento aprender a tocá-los e intermediar as relações com Atlética e com a Faculdade foram, pra mim, missões bem interessantes. Mas o que fica, de fato, são as amizades construídas naquela época e a memória de todos aqueles anos. Não preciso falar muito disso porque é meio óbvio. Mas posso dizer que tenho contato até hoje com quase todo mundo que fazia parte do Comando na minha geração. Cada um foi pra um canto, é verdade. Mas estamos sempre nos falando. E é legal de ver que aquele pessoal do samba, que sentava na última fileira da classe e que pegava um monte de DPs hoje é juiz, promotor, professor, dono de escritório, sócio de escritório grande, com especialização e mestrado dentro e fora do país… tem jornalista, empresário… Comando formador de caráter desde 1998!

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Logo comemorativo dos 20 anos do Comando!