Desde 23/10, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Victor Castilhano Viterbo, aluno da Faculdade de Direito do Mackenzie que ocupa a cadeira nº. 08 (Patrono Fernando Pessoa). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Utopia: o fim da sociedade

Victor Castilhano Viterbo

O escritor francês Bernard Weber utiliza-se da voz de uma de suas personagens, o recluso e excêntrico cientista Edmond Wells, para incutir interessantes ponderações sociais na trama de seus romances. Em meio aos seus livros, Weber introduz passagens do livro de autoria do brilhante –e já falecido- entomologista fictício (entomologista é uma pessoa que estuda insetos) para discorrer sobre seus próprios estudos sobre o mundo dos insetos com ponderações filosóficas e comparações com a sociedade.

Relendo um desses livros há algumas semanas, me chamou à atenção uma passagem da dita “enciclopédia” que se encontra misturada ao livro. Nela, Wells faz uma comparação entre a sociedade das formigas e a dos cupins. Diz que seus colegas entomologistas acreditavam ser a dos cupins a sociedade perfeita. Edmond concordava, porém, acreditava ser justamente a perfeição dos cupins seu grande fracasso: “Aquilo que, por definição, é perfeito, não pode mais ser melhorado. A cidade cupim ignora qualquer questionamento, qualquer revolução, qualquer perturbação interna. Os cupins evoluíram muito pouco nos últimos 200 milhões de anos”. Ao contrário -Weber/Wells afirma- a formiga, ao seu modo “anárquico”, progride cometendo erros (aliás, começa tudo o que faz com erros) e, nunca satisfeita com o que possui, experimenta tudo. “Não é um sistema estável, mas é uma sociedade que, permanentemente, avança tateando.” Dessa forma, formigas são capazes de atravessar rios, cultivar suas próprias plantas e até mesmo domesticar outros pequenos animais.

A meu ver, não é muito diferente com a espécie humana. Houve uma época em que eu acreditei ser o dever dos humanos –sobretudo dos cientistas, escritores e filósofos- “avançar” a espécie humana rumo à perfeição, ao triunfo do racionalismo. Hoje eu percebo que o triunfo do racionalismo iria matá-lo. Nenhuma guerra, fome, injustiça (que devem, certamente, ser amenizadas, pelos de grande saber) se compara à apatia intelectual da Sociedade Perfeita, condenada a repetir eternamente a receita da felicidade, confinada aos limites de sua própria perfeição.

Eu acreditava que um dia surgiria um pensador que traria os perfeitos ideais para a vida sem sofrimento. Acreditava ser o dever dos que vivem hoje pavimentar a estrada até a chegada da pessoa que daria a cartada final dos humanos diante do enigma de sua própria existência. Agora eu vejo que esse dia provavelmente nunca vai chegar, e é melhor que nunca chegue, pois a corrida pelo saber não deve chegar a um fim, Ela é um fim em si mesmo. Declarar a filosofia e a ciência resolvidas seria desperdiçar todo o caminho percorrido.

Basta um momento de reflexão, no entanto, para verificar a ingenuidade da minha antiga crença. Com meros cinco mil anos de civilização, nós homens já nos iludimos e envaidecemos na possibilidade de descobrir, em um futuro próximo, todos os segredos do universo! Aos cupins, que não sabem de segredo nenhum, foram precisos 200 milhões de anos para atingir seu limite.

Claro, ainda acho ser o dever dos cientistas, sociólogos, formadores de opinião, espalhar ideias, criar soluções para apaziguar o sofrimento. Mas não é porque impedimos que mais de nós sucumbam à fome e à pobreza que estamos dando um fim aos problemas da espécie. Um indivíduo (ou mesmo milhões de indivíduos), nada significam de ante da longevidade da espécie. Os mortos da Segunda Guerra Mundial ou da violência das ruas do Brasil de hoje não significam muito mais à história do que o suplício dos que morriam nos portões da Babilônia em períodos de seca. Apesar disso, é o nosso dever continuar a nos empenhar em formas de exercer uma justiça mais eficaz, sistemas mais igualitários e até mesmo esboçar o que acreditamos ser, em conceitos de nossa época, um “mundo perfeito”, mas sem ilusões de uma solução perpetuamente agitada, até porque, se uma sociedade para de se agitar, é porque está morta.

É difícil para mim –na minha limitada imaginação de homem do século XXI- conceber uma “sociedade perfeita” em que as pessoas não estejam entregues à repetição e à monotonia, ainda que embebidas em uma noção de que a falta de instabilidade represente a felicidade. Essa sociedade Huxleiana de zumbis felizes, em que o pensamento, a ciência e a arte estão mortas é, para mim e meus conceitos de século XXI, apavorante.

Karl Marx acreditava que, com o socialismo em seu estado final, chegaria-se a “o fim da história”. Eu pensava que isso acarretava em um mundo sem guerras, injustiça e tensão social, em que a humanidade se voltava para a arte e a ciência. Hoje eu vejo que “o fim da história” é o fim da espécie humana como pensante, e espero que esse dia (que julgava distante do século XIX dele e do meu XXI) jamais chegue. Busco avanço, mas nunca um ponto final.

Colonizem a galáxia, curem todas as doenças, mas jamais deem ouvidos a quem sugerir que atingimos nosso limite, porque, se acreditarmos, aí sim o teremos atingido.

Apresentação2