Desde 23/10, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Guilherme Vieira da Silva, aluno da Faculdade de Farmácia do Mackenzie que ocupa a cadeira nº. 35 (Patrono Castro Alves). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

 

É coisa de preto!

Guilherme Vieira da Silva

Papo do Posse Mente Zulu:

 

“Vinte de novembro temos que repensar

A liberdade de um negro que tanto teve de lutar…

…E esse é o recado que acabamos de mandar

Pra toda raça negra escutar e agitar

Portanto honre sua raça, honre sua cor

Não tenha medo de falar, fale com muito amor

Sou negrão!”

 

É coisa de preta!

No olhar da senhora a lavar, passar, cozinhar em casa que não sua durante uma vida dura…

pele escura… vendo suas crias sem vida no São Luís. No olhar da senhora que já lavou, passou,

cozinhou, mineira, romancista, poetisa, ensaísta, Conceição Evaristo aí nas pistas.

É coisa de preto!

No olhar dos “menor” marretando no tremzão. No olhar do estudante que ia à escola pra

comer, merendar, que hoje pode sonhar. No olhar do estudante com diploma na mão, depois

de tanto busão tendo de pegar.

No olhar da preta que esticava, alisava os cabelos, mal podia escolher, progressivas goela

abaixo, agora com todo o crespo e cachos à mostra.

É coisa preta!

Dança de bamba que só quem é manja: Cartola, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara.

Pixinguinha, mestre dos mestres, o carinhoso… Foi barrado por sua (nossa) cor…

 

“Seja escuro, mas seja escuro e verdadeiro!”.

Poesia do mais recôndito e escuro do meu peito a todas pretas e pretos:

 

Essa aqui vai em alto e bom som (rápido)

Foi subtraído de seu lar (súbito)

Com costumes, história, família (cóleras)

Com cantigas, crianças, crenças (cérebros)

Com amores, tretas, trutas (títulos)

A pele em que pousou o pássaro noturno (impávido)

A pele em que a brasa maldita caucasiana dilacerou (infortúnio)

A pele banhada de águas como do Nilo (plácida)

Tal qual o rio dando fertilidade ao árido, em meio ao cruel, ao desumano (sobrevivência, cântico)

Levando de beber às minas e aos manos, lutando, reavendo o nosso direito de sorrir (sólido)

Sorriso de marfim (incólume)

Cada um de nós traz em cada (célula)

Um pouco das pátrias belas: (África)

Aprendi a minha história vendo mainha (límpida)

Por seus olhares, colares, contar de seus velhos lares (fúlgidos)

Lá nos confins da Bahia (íntima)

Pele cor de cobre que brilha… minha rainha (rígida)

Carregamos os corações e sonhos nas mãos (ritmo tático)

Mães carregam filhos desfalecidos nas mãos (tiros da tática)

Faz parte da nossa cota mudar essa conta (lunática)

Punchline pra mim é preta e preto graduado

Mestrado, doutorado, sendo referência pra mais e mais favelado

Ver Tássia Reis e Rincón Sapiência com disco lançado

E dominar a norma padrão sem perder a nossa (gramática)

Faculdade das ruas não aceita falhas, faltas (lástimas)

A caneta é que nem matraca, evita o despejo de (lágrimas)

A caneta é a voz pras pretas e pretos que nem nóis (fórmula mágica)

A borracha é o proceder de pedir perdão, não seja (facínora)

Enumerando as notas, filhos, netos, não as (nódoas)

Empoderando nossas idéias, diplomas, não (nádegas)

África África (África)

Mantenha na mente essa (prática)

Não somos mais escória (nunca fomos)

Não perdemos mais em retórica

A vacina pra essa doença é saber da nossa história

Se não sabe de onde veio, você é só um invólucro vazio

A negritude é tudo

A negritude é o gene, o sacrifício, toda a nossa herança

Preta e preto têm história, têm raiz, têm sangue

É como em Recife, o que lhe representa está no mangue

Se não sabe de onde veio, você é só um invólucro vazio

Cada parte de nós é resistência por natureza

Abaixo, imerso na lama, esconderam nossos ancestrais que lutaram

Que abdicaram de suas vidas em busca da liberdade

E nóis moscando em debate de Internet

E as meninas e os pivete? As pretinha e os pretinho, quem investe?

Quem conta pra eles de Conceição Evaristo, Dandara, Malcom X?

As ruas ensinam Negra Li, Mano Brown, Afro X

Nossa ancestralidade nos move

Se respiramos hoje, pretos e pretas deram seu sangue

Não se ache o monge, um Gandhi

Mais respeito ao filho subtraído,

Ubuntu, África

Cada ancestral percorre suas veias, seu íntimo

A luta prossegue até o fim, segue o ritmo

Maior prova da nossa ancestralidade

É que continuamos resistindo, axé!

Apresentação2