Desde 23/10, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Thiago Blumenthal, que ocupou em sua época de estudante a cadeira nº. 11 (Patrono Nelson Rodrigues). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Mais do que a química

Thiago Blumenthal

 

Supus na minha análise hoje que as paredes tivessem ouvido, o que pensariam de mim. Ou, mais ficcionalmente, se houvesse uma Gestapo ou uma Stasi monitorando a narrativa de cada paciente. Eu estaria perdido.

Buscando um artigo do Freud na Biblioteca do Congresso americano, fiz uma busca por meu sobrenome. Freud teria se correspondido com um “mr. Blumenthal” em 1924, cuja carta é ilegível pra mim. Quem pode ter sido esse senhor Blumenthal, um paciente, um amigo pessoal?

Tratam de emigração, Estados Unidos e outras questões familiares, de acordo com o site. Três gerações para trás e um Blumenthal tratando diretamente com Freud. Mas me intriga se a carta menciona algum mal, algum distúrbio, a temida esquizofrenia que corre no cérebro e bombeia o coração de nossa família.

Não acredito na visão internalista do mundo, dele tal qual uma representação refletida na consciência. Acho um conceito antiquado num momento em que corações e mentes unem objeto e experiência em um único fenômeno. Só há átomos e vazio? Os sentidos respondem ao intelecto que sua vitória é sua derrota.

Meu pai, um entusiasta da química orgânica, me fala em geometria molecular de pares não ligantes. Se não houvesse ninguém para ler um romance, não haveria romance. Quando Platão recebe a visita de um estrangeiro, ouve que a existência é uma forma de ação, que algo existe somente se tem algum tipo de “capacidade”, ou seja, depende de uma interconexão, quase budista, com outros objetos. A maçã que está em minha cozinha, e não a vejo neste exato momento, não existe mas continua sendo um objeto, não a representação de um objeto.

Nossas memórias, pensamentos, afetos, sonhos, nosso inconsciente inclusive, também são objetos e demandam seus pares. O que se ouve na sala ao lado, meus delírios e meus maiores medos, o sr. Blumenthal com quem Freud se correspondeu em 1924, esse post sem fim, em um universo que não deveria sequer existir per se, condicionam os átomos de minha consciência. A questão fundamental reside sobre os elétrons não ligantes: como diria Walter White, é como se faltasse algo na equação, a alma. Ou Deus.

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