Ex-Presidente do Centro Acadêmico João Mendes Jr. e formado em 2007, Carlos Alberto hoje mora em Londres e trabalha na Queen Mary University of London.

O JP3 inaugura essa semana a coluna “Direito-Mack pelo Mundo”, com o objetivo de divulgar experiências de antigos alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie que, após a conclusão do curso, se mudaram para o exterior. A coluna começa com a entrevista de Carlos Alberto Pinto de Carvalho, o Carlutcho, ex-presidente do Centro Acadêmico João Mendes Jr. e que hoje vive com a família em Londres. Carlos nasceu em Belo Horizonte, é formado em Direito (2007), com qualificação no Brasil e em Portugal e acabou de finalizar o curso de LLM em Comparative and International Dispute Resolution na Queen Mary University of London. Abaixo você confere o bate papo que o JP3 teve com o antigo mackenzista da Faculdade de Direito.

JP3 – Você foi presidente do Centro Acadêmico João Mendes Jr. O que levou dessa experiência para os dias de hoje?

Carlos – A experiência gerindo o CAJMJr. me fez amadurecer muito. Toda a pressão quecarlos1 enfrentamos, tentando fazer um bom trabalho pelos alunos e ao mesmo tempo sofrendo interferências de interesses conflitantes entre diferentes estudantes, oposição, direção da faculdade de direito e reitoria me prepararam para administrar ambientes complexos. O que eu levo até hoje foi uma capacidade que tive que desenvolver de ler as pessoas e identificar os reais interesses por trás de suas manifestações. Com isso é possível trabalhar melhor em equipe e motivar todos a sua volta a darem o melhor de si e, ao mesmo tempo, se afastar de pessoas que não estão alinhadas com os seus objetivos.

JP3 – Quais as melhores lembranças que tem do Mackenzie?

Carlos – Duas palavras: jogos jurídicos. Sem dúvida foi a fundação de uma tradicional acomodação nos jogos naquela época que se chamava “Chacarosa”, onde conheci pessoas incríveis de quem sou amigo até hoje. O movimento estudantil foi mais conturbado, mas também traz boas lembranças e amigos pra vida toda.

JP3 – Como acabou indo morar em Londres?

Carlos – Eu me casei com uma britânica que teve uma oportunidade única na carreira dela, mas que nos obrigaria a mudar para Londres. Apesar do sucesso do escritório que fundei com colegas de Mackenzie (CKM Law – procurem conhecer!), eu buscava novos desafios pessoais e vi nessa situação uma oportunidade de me reinventar e iniciar uma carreira na área da arbitragem internacional, assunto que sempre estudei, mas com o qual eu tinha poucas oportunidades para trabalhar no Brasil. Avisei meus sócios, fiz as malas e mudei com mulher, cachorro e uma filha de 9 meses com a qual convivi muito nesses primeiros dois anos em que me dediquei à sua criação e aos estudos. Foi um privilégio que não teria no ritmo frenético de um escritório de advocacia.

JP3 – Continua trabalhando com direito ai?

Carlos – Sim. Durante o LLM trabalhei como voluntário prestando assessoria jurídica no Legal Advice Centre da universidade (como se fosse o nosso escritório modelo) e nesse momento eu dou suporte para a área de carreiras da universidade enquanto aguardo meu diploma. Ao mesmo tempo tenho contribuído em casos e projetos específicos de profissionais da área aqui em Londres, mas o objetivo é me firmar como advogado aqui até o próximo ano.

JP3 – São Paulo e Londres são duas metrópoles. Qual a diferença entre trabalhar em cada uma delas?

Carlos – A vida em Londres me parece um pouco mais dura do que em São Paulo, porque existe pouca flexibilidade e não é tão fácil encontrar amigos e descontrair sem agendar tudo com antecedência. Essa falta de flexibilidade e espontaneidade se reflete também no ambiente de trabalho. Por outro lado, nas empresas com as quais já tive contato aqui em Londres, a cultura de “face time”, ficar mais tempo no trabalho para que seus empregadores percebam como você trabalha bastante, parece ser bem menor do que no Brasil. Além disso, o ambiente de negócios em geral é menos burocrático e mais baseado em bom senso, o que me agrada bastante.

JP3 – Vê muita diferença no trabalho do bacharel em direito na Inglaterra e no Brasil?

Carlos – Sim. Vejo muita diferença. O ambiente aqui, mesmo entre os formados em universidades de ponta, é muito mais competitivo. Chega a ser ruim para o mercado que acaba tendo que criar ferramentas de recursos humanos muito rígidas para administrar a seleção de candidatos e desperdiça talentos com capacidades complementares que teriam potencial de inovação, algo muito necessário para os desafios que o mercado legal está enfrentando no momento. Apesar disso, existem muitas coisas positivas. Os escritórios aqui, mesmo os de médio porte, possuem uma estrutura tecnológica e processos internos invejáveis.

JP3 – Você hoje estuda na Queen Mary University of London. Qual a diferença entre estudar no Brasil e no exterior?

Carlos – Não sei se o mesmo ocorre na graduação aqui, mas o suporte que é oferecido carlos2para que os alunos do LLM se desenvolvam academicamente e profissionalmente é algo que eu jamais ouvi falar no Brasil. Além da estrutura de módulos, que te dá flexibilidade para montar o seu curso de acordo com os seus objetivos, existem tutoriais complementares às aulas, sessões práticas com advogados de cada uma das áreas, acesso a diversas bibliotecas físicas e online, material de ponta, programas de mentoria, aulas de oratória, treinamento para entrevistas, consultas personalizadas para melhorar currículo e carta de apresentação, entre outras atividades, conferências, seminários, eventos de networking etc. É impressionante!

JP3 – Quais oportunidades você vê hoje para estudantes de direito no Brasil e que tenham interesse de estudar ou trabalhar no exterior? Quais as dicas que você daria para quem quer um dia morar no exterior?

Carlos – Eu acredito que estudar no exterior é algo virtuoso não apenas para o indivíduo, mas para o país. Quando esse estudante retorna ele sabe que é possível fazer as coisas de outro modo e pode melhorar o ambiente em que estuda e trabalha. Apesar de no curto prazo essa saída do mercado brasileiro representar algumas dificuldades, a experiência e o conhecimento adquiridos no exterior são uma vantagem competitiva no médio e longo prazo que supera muito o investimento de tempo e dinheiro iniciais. Para morar no exterior a minha dica é a de não buscar o Brasil fora dele. Tentar se adaptar e respeitar a cultura local, sem falsos saudosismos, é o caminho para uma vida boa em uma cidade diferente, onde você vai ter a oportunidade de desenvolver capacidades que nunca teve, e se orgulhar delas.

JP3 – Mesmo morando em Londres, continua tendo contato com o Brasil?

Carlos – Sim, a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente. Tenho minha família e bons amigos por aí e invariavelmente nosso trabalho aqui acaba sendo gerado por coisas que acontecem no Brasil.

JP3 – Pretende, um dia, voltar para o Brasil?

Carlos – Não descarto a possibilidade, mas a princípio não tenho essa intenção. Acredito que será melhor para a minha filha crescer aqui e eu mesmo ainda tenho muito o que desenvolver antes de sentir que a missão por aqui foi cumprida.